O gênero que moldou o nosso jeito de ler a Bíblia inteira.
A epístola é o mais básico dos gêneros bíblicos, e por um motivo curioso: foi nele que a maioria de nós aprendeu a ler a Bíblia. Crescemos estudando Romanos e Efésios, e sem perceber deixamos que o jeito de ler cartas moldasse o jeito de ler tudo o mais. A epístola não tem enredo como a narrativa, nem símbolo esotérico como o apocalíptico, nem a sutileza metafórica da parábola. Ela parece a mais simples de todas. E é justamente aí que mora a armadilha, porque a aparência de simplicidade esconde uma peculiaridade que produz muito erro de aplicação.
Fee e Stuart usam uma imagem que eu costumo repetir aos alunos. Ler uma epístola é como ouvir só um lado de uma conversa ao telefone. Nós temos as respostas de Paulo, mas nem sempre sabemos quais eram as perguntas. A carta foi escrita para resolver um problema concreto de uma igreja concreta, e esse problema, na maior parte das vezes, ficou do outro lado da linha. Quem esquece isso trata uma resposta pontual como se fosse um decreto universal.
Ela foi escrita para uma situação real de uma comunidade real. Ler bem começa por reconstruir a pergunta que o texto responde, antes de extrair dele a verdade que vale para sempre. A intensidade com que uma ordem foi dirigida a uma situação específica é a mesma intensidade com que a forma superficial dessa ordem pode não se aplicar a nós hoje.
Isso não enfraquece a autoridade das cartas, ao contrário. Dentro de cada uma há elementos ocasionais, presos àquele momento, e elementos supraculturais, que atravessam os séculos. O trabalho do intérprete é separar os dois com honestidade, e este caderno existe para ensinar esse corte. As duas coisas importam: a precisão de quem respeita o contexto e o cuidado de quem não coloca sobre o irmão de hoje um peso que era para a Corinto do primeiro século.
Antes de ler uma epístola cristã, vale entender a caixa dentro da qual ela foi escrita. As convenções da carta antiga explicam muita coisa que passa despercebida no texto bíblico.
Toda correspondência antiga tinha três partes: a abertura, o corpo e o encerramento. A abertura e o encerramento seguiam padrões rígidos, quase burocráticos. O corpo variava conforme o assunto. A ordem dos nomes e o tom da saudação carregavam informação social: nas cartas de El-Amarna, um inferior escrevia "eu sou o pó sob seus pés", e a etiqueta mudava conforme o remetente fosse superior, igual ou inferior ao destinatário. A saudação aramaica costumava trazer a paz, o shalom, ou a bênção. A grega era mais seca: "fulano a beltrano, saudações e boa saúde".
Havia dois grandes usos para uma carta. A carta não literária era a correspondência pessoal, escrita para uma pessoa. A epístola literária ou tratado era escrita para um público amplo e pensada para ser publicada. No tempo de Paulo, o tratado epistolar já era popular: Sêneca escrevia a Lucílio dando conselhos morais, e Cícero publicou centenas de cartas para influenciar a opinião pública. Os estudantes aprendiam a arte de escrever cartas nas escolas de retórica, com manuais que ensinavam a forma correta. Guardar isso ajuda a não subestimar os autores do Novo Testamento: eles escreviam num grego simples, o coiné das ruas, mas com um nível literário alto.
É o grego comum, a língua franca do Mediterrâneo no primeiro século, falada nas ruas e no comércio. Os autores do Novo Testamento a escolheram de propósito, no lugar da prosa artística erudita, para alcançar a pessoa comum. Simples não quer dizer pobre: o coiné do Novo Testamento é hábil e cuidado.
As cartas de Paulo e dos outros apóstolos não copiam os modelos antigos. Elas os aproveitam e os transformam, e é nessa transformação que a teologia aparece.
Adolf Deissmann achava que as cartas de Paulo fossem correspondência pessoal pura, escrita no calor do momento, sem projeto literário. A maioria dos estudiosos hoje considera essa visão simples demais. As epístolas do Novo Testamento ficam entre a carta privada e o tratado. Só algumas, como Filemom e as cartas curtas de João, são de fato pessoais. As outras foram escritas com consciência de autoridade apostólica e para serem lidas em voz alta na assembleia. Paulo chega a ordenar que sua carta seja lida a todos (1Ts 5.27), e cada mensagem às sete igrejas no Apocalipse termina com "quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas".
| Parte da carta | A convenção antiga | A inovação cristã |
|---|---|---|
| Abertura | Remetente, destinatário e uma saudação curta (khairein, "saudações"). | A saudação une o grego "graça" ao aramaico "paz" e enche as duas de peso teológico: uma promessa realizada em Deus Pai e no Senhor Jesus. |
| Corpo | Assunto variado, em geral breve, sobre um tema prático. | Mais longo e mais denso, sempre voltado a um problema concreto da igreja, mesmo nas cartas mais gerais. |
| Encerramento | Saudações a amigos e um desejo final de boa saúde. | Bênção e doxologia no lugar do voto de saúde, mais o beijo santo e a graça escatológica oferecida aos leitores. |
Há um detalhe que muda a forma de ler as aberturas. A ação de graças e a oração que Paulo põe logo depois da saudação não são cortesia vazia. Paul Schubert e Peter O'Brien mostraram que elas costumam anunciar o tema central da carta inteira. Quando você lê a oração de abertura de Colossenses ou de Filipenses, já está lendo, em miniatura, o que a carta vai desenvolver. E quando a ação de graças some por completo, como em Gálatas e em 2Coríntios, isso é sinal de que o problema por trás da carta é grave demais para elogios.
Aqui a palavra não significa a vinda de Cristo, e sim a "presença" de Paulo na própria carta. Ele escreve de um jeito que o faz estar presente com a igreja no momento em que o texto é lido em voz alta, recapitulando seu ministério e se colocando como exemplo do que ensina. A carta era o modo de Paulo pastorear de longe.
Duas perguntas costumam surgir quando se estuda quem escreveu as cartas: o papel do secretário e a acusação de que algumas seriam falsamente atribuídas.
Paulo e Pedro mencionam a ajuda de um secretário, o amanuense (Rm 16.22; 1Pe 5.12). No primeiro século havia três níveis de envolvimento desse ajudante. No primeiro, a carta era ditada palavra por palavra, sem liberdade nenhuma. No segundo, o autor dava o conteúdo e o secretário cuidava do estilo e da redação. No terceiro, o autor dava só o assunto e deixava o resto por conta do secretário. Não há evidência do terceiro nível nas cartas bíblicas. Os dois primeiros, sim: é possível que o estilo de 1Pedro e das Pastorais tenha vindo em parte do amanuense. Isso não abala em nada a autoridade delas, porque o Espírito Santo podia inspirar tanto o autor quanto o secretário, e no mundo antigo o mestre autenticava cada palavra escrita sob sua orientação.
O amanuense era o secretário que ajudava a redigir a carta, com mais ou menos liberdade conforme o autor. A pseudonímia é a prática de atribuir uma obra a alguém que não a escreveu, em geral um nome de peso, para lhe dar autoridade.
Alguns propõem que Efésios, as Pastorais, 2Tessalonicenses, Tiago e as cartas de Pedro seriam produtos tardios da igreja, assinados com nomes de apóstolos. Donald Guthrie observa o ponto que costuma ser esquecido nesse debate: houve muitas obras pseudônimas no primeiro século, mas há pouquíssima evidência de que a igreja as tenha aceitado como autorizadas. As obras pseudônimas judaicas não entraram no cânon hebraico, e duvida-se que alguém de fato acreditasse que tinham sido escritas pelas figuras cujos nomes traziam. A questão precisa ser decidida caso a caso, e eu continuo pouco convencido da origem tardia de livros como as Pastorais, Tiago ou 1Pedro. O anonimato é outra coisa, e era comum: Hebreus não traz o nome do autor e, como Orígenes já reconhecia, carrega a própria autoridade.
Este é o coração da leitura das epístolas. Dentro de cada carta há o que pertencia àquela igreja e o que pertence a toda igreja. Confundir os dois é a fonte de quase todo abuso do gênero.
As cartas não são uma exposição sistemática da teologia. Elas usam a teologia para resolver problemas concretos. Por isso é arriscado ler uma frase isolada como se fosse um dogma acabado. O caminho é recuar da declaração pontual para a teologia bíblica que a sustenta, e só então perguntar o que ela exige de nós. A tabela abaixo é a bússola desse corte.
| Aspecto | O ocasional | O supracultural |
|---|---|---|
| O que é | A resposta a um problema específico daquela igreja, na cultura daquele tempo. | O princípio teológico que atravessa a resposta e vale para toda igreja. |
| Exemplo claro | "Vai me encontrar em Nicópolis" (Tt 3.12). | A verdade sobre justificação em Romanos. |
| Como aplicar | Buscar a situação análoga de hoje, não repetir a forma. | Aplicar diretamente, porque a verdade não muda. |
| Erro comum | Tratar o detalhe cultural como lei universal. | Relativizar o princípio como se fosse mero costume. |
Dois erros de aplicação estendida mostram como a linha é fina. Os textos que chamam o cristão de santuário de Deus (1Co 3.16-17; 6.19-20) foram usados para condenar comida ruim e cigarro, mas o sentido original não tinha nada a ver com dieta, e a extensão não se sustenta. Já "não vos ponhais em jugo desigual com os incrédulos" (2Co 6.14) fala, no contexto, de participar de práticas pagãs, e ainda assim aplicá-lo ao casamento entre crente e não crente é uma extensão legítima do mesmo princípio, desde que pregada como implicação, e não como o sentido do texto.
São as questões que a Bíblia deixa em aberto, sobre as quais os cristãos podem, nas palavras dos antigos, "concordar em discordar". Não tocam uma doutrina cardeal. A carne sacrificada aos ídolos de 1Coríntios 8 a 10 e as comidas e dias de Romanos 14 são o modelo: o princípio que vale hoje é não fazer nada que sirva de tropeço ao irmão mais fraco, preservando a unidade da igreja.
A lista do que já se proibiu em nome da carne sacrificada aos ídolos é enorme: roupa, cabelo, joias, cinema, cartas, bebida, fumo. O texto não é uma licença para alardear a própria liberdade nem uma desculpa para impor regras que a Escritura não impôs. O alvo de Paulo é o amor que não derruba a fé do outro. Firmeza na doutrina cardeal, generosidade no que é adiáfora.
Toda a teoria vira, no fim, três passos. Este é o checklist para sentar diante de uma epístola e lê-la bem.
A carta é um raciocínio, não uma lista de versículos soltos. Em algumas isso é fácil, como em Coríntios e Hebreus. Em outras é difícil: Tiago avança por blocos temáticos, e 1João gira em estilo rondó em torno de três testes do verdadeiro cristão, o teste da obediência, o do amor e o da fé. Em todo caso, relacione cada parte ao todo e siga o fio do autor.
Quem eram os oponentes em Corinto, em Colossos, em 1João? A interpretação de passagens inteiras depende dessa reconstrução, e por isso vale consultar bons comentários. Depois vem a pergunta da aplicação: os detalhes daquela situação são comparáveis aos nossos? Onde não são, busque o princípio antes de aplicar.
As epístolas trazem, embutidos, quase todos os outros gêneros. Há hinos, credos, trechos apocalípticos e provérbios. Cada um se lê pelas regras do seu gênero. As cautelas do apocalíptico ajudam em 2Tessalonicenses 2 e em 2Pedro 3; as regras da poesia iluminam 1Timóteo 3.16. E um hino como Filipenses 2.6-11 se lê em dois níveis: o sentido do hino em si, a encarnação e a exaltação de Cristo, e o uso que Paulo faz dele na carta, como modelo de humildade.
Há um detalhe pequeno na abertura de quase toda carta do Novo Testamento que, bem entendido, resume por que este gênero existe.
Os gregos abriam suas cartas com "saudações", os judeus com "paz". Os apóstolos pegaram as duas palavras e fizeram delas outra coisa. "Graça e paz a vós, da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo." O que era um cumprimento de etiqueta virou anúncio. A graça deixou de ser um "olá" e passou a ser o favor imerecido de Deus derramado sobre a igreja. A paz deixou de ser um voto de saúde e virou a reconciliação selada na cruz. A saudação se tornou uma promessa escatológica realizada, o evangelho inteiro comprimido em três palavras no alto da página.
Isso diz tudo sobre o gênero. A epístola não nasceu para especular. Ela nasceu para aplicar o que Cristo fez à vida real de pessoas reais, com seus conflitos, suas dúvidas e seus pecados. Cada carta é o evangelho descendo ao chão de uma comunidade específica, respondendo à pergunta que aquela gente estava fazendo. E é por isso que ler epístola bem exige as duas coisas ao mesmo tempo, a exegese que reconstrói a pergunta antiga e o cuidado pastoral que entrega a resposta certa a quem pergunta hoje.
Ela não foi escrita para ser admirada de longe como um tratado, e sim para ser obedecida de perto como uma carta. Reconstrua a pergunta, encontre o princípio, entregue a graça. É assim que a voz dos apóstolos continua pastoreando a igreja de hoje.
Tudo o que você leu aqui pode ser verificado. Estas são as obras e os autores que sustentam cada afirmação deste caderno.
Cada epístola contém o ocasional e o supracultural juntos. Separá-los com honestidade é a diferença entre pregar a voz dos apóstolos e pregar a nossa própria.
A Palavra merece
o melhor do seu preparo.